Para regularizar uma empregada que trabalha há anos sem registro, cadastre a admissão no eSocial com a data real de início, pague as guias DAE atrasadas com multa e juros, acerte férias e 13º pendentes e comece folha, ponto e recibos. A cobrança alcança até 5 anos; regularizar interrompe o acúmulo em vez de aumentá-lo.
Muita família descobre que tem uma empregada doméstica sem registro só quando alguém pergunta. A relação começou como diária, a frequência aumentou, os anos passaram e a carteira nunca foi assinada. A boa notícia é que dá para corrigir, e quanto antes você corrige, menor é a conta.
Empregada doméstica sem registro: a partir de quando existe vínculo?
O vínculo existe a partir do primeiro dia em que a pessoa passou a trabalhar mais de dois dias por semana na sua casa, de forma contínua, com salário e seguindo a sua orientação. É o que diz o art. 1º da Lei Complementar 150/2015, a lei do trabalho doméstico.
O que decide é a rotina real, qualquer que seja o nome dado ao combinado. Três dias por semana durante meses configura vínculo mesmo sem contrato escrito e mesmo com pagamento por diária. Isso vale para faxineira, cozinheira, babá, caseiro, motorista particular e cuidador de idoso.
| Situação | Tem vínculo? | Data que vai para o registro |
|---|---|---|
| Sempre trabalhou 1 ou 2 dias por semana | Não | Não há registro a fazer |
| Começou com 3 dias ou mais | Sim | O primeiro dia de trabalho |
| Começou como diarista e passou para 3 dias ou mais | Sim | O dia em que a frequência mudou |
| Foi registrada, mas meses depois do início | Sim | A data real de início, corrigida |
O que a empregada sem registro pode cobrar?
Ela pode cobrar tudo o que teria recebido se estivesse registrada desde o primeiro dia, dentro do limite de prescrição. Isso inclui o FGTS de todos os meses, as férias com o terço, o 13º salário, o reconhecimento do tempo para a aposentadoria e, se houver dispensa, as verbas da rescisão com a multa de 40% do FGTS.
O prazo segue o art. 43 da LC 150/2015: a empregada pode cobrar os últimos 5 anos, contados da data em que entra com a ação, e tem até 2 anos depois do fim do contrato para entrar. O pedido de anotação na carteira para contar tempo de INSS não prescreve (CLT, art. 11, § 1º). Por isso o tempo de casa inteiro costuma aparecer no processo, mesmo quando é mais antigo que cinco anos.
Férias que não foram concedidas nos 12 meses seguintes a cada ano trabalhado são pagas em dobro, pelo art. 137 da CLT. Num vínculo sem registro, quase sempre as férias nunca foram formalizadas, e esse é um dos itens que mais pesam na conta.
Para ver uma estimativa do seu caso, com o salário e o tempo reais, use o simulador de risco trabalhista. E o artigo sobre quanto pode custar um processo trabalhista de empregada doméstica detalha cada item que entra numa ação.
Como regularizar a empregada doméstica sem registro, passo a passo
Regularizar é registrar com a data certa, pagar os recolhimentos atrasados e organizar a rotina daqui para frente. A ordem que evita retrabalho é esta:
- Defina a data real de início. Converse com a empregada e chegue a uma data que os dois reconheçam. Se ela começou como diarista, a data é o dia em que passou a ir três vezes ou mais por semana.
- Reúna os documentos. CPF, carteira de trabalho digital, número do PIS/NIT, comprovante de residência e dados bancários.
- Faça o cadastro no eSocial Doméstico com a data real de admissão. O sistema aceita admissão com data passada. O passo a passo está no artigo como registrar empregada doméstica no eSocial.
- Lance a folha dos meses em atraso. Cada mês do período vira uma competência no eSocial, com o salário que foi pago naquele mês.
- Emita e pague as guias DAE atrasadas. O próprio eSocial calcula multa e juros no momento da emissão.
- Acerte férias e 13º pendentes. Conceda as férias vencidas o quanto antes, com recibo assinado, e pague as que já passaram do prazo como manda o art. 137 da CLT.
- Assine o contrato e comece a rotina. Contrato por escrito, controle de ponto assinado todo mês, holerite assinado e DAE paga até o dia 20.
Registrar com a data de hoje parece mais barato, mas deixa o período anterior inteiro em aberto. Numa ação, uma testemunha ou uma troca de mensagens basta para provar quando o trabalho começou, e aí a diferença é cobrada com correção. O texto sobre registro com data retroativa mostra como lançar os meses passados.
Quanto custa regularizar: exemplo com números
O custo principal da regularização são os recolhimentos que não foram feitos. Veja um exemplo: empregada com salário de R$ 2.000, trabalhando há 2 anos sem registro, dispensa nenhuma e sem horas extras.
A guia DAE soma 20% sobre o salário por conta do empregador: 8% de INSS patronal, 0,8% de seguro contra acidente, 8% de FGTS e 3,2% de antecipação da multa rescisória (LC 150/2015, art. 34). Além disso, a guia recolhe o INSS da empregada, que em 2026 vai de 7,5% a 14% conforme a faixa de salário. O 13º de cada ano também entra na conta.
| Item | Como calcular | Valor no exemplo |
|---|---|---|
| Encargos do empregador (20%) nos 24 meses | R$ 2.000 × 20% × 24 | R$ 9.600,00 |
| Encargos do empregador sobre os dois 13º | R$ 2.000 × 20% × 2 | R$ 800,00 |
| INSS da empregada, que não foi descontado | R$ 155,69 × 26 competências | R$ 4.047,94 |
| Principal dos recolhimentos | R$ 14.447,94 | |
| Multa e juros | Calculados pelo eSocial na emissão de cada guia | Variam conforme o atraso |
De onde vem o INSS da empregada: em 2026, a primeira faixa vai até R$ 1.621,00 com 7,5% (R$ 121,58) e a parte entre R$ 1.621,01 e R$ 2.000 paga 9% (R$ 34,11). O total é R$ 155,69 por mês. Do valor do empregador, R$ 4.160 são o FGTS de 8% que vai para a conta da empregada.
Para simplificar, o exemplo usa as regras de 2026 em todos os meses. Na regularização real, o eSocial calcula cada competência com o salário mínimo e a tabela do INSS vigentes naquele mês.
Se as férias nunca foram tiradas, entra ainda o acerto: R$ 2.666,67 por período sobre R$ 2.000, ou R$ 5.333,33 se o prazo venceu.
Regularizar agora não vai piorar a situação?
Não piora: regularizar reduz o passivo em vez de aumentá-lo. Registrar interrompe a contagem, cria a prova que faltava (guias, recibos, ponto) e abre caminho para um acordo. Continuar como está mantém a conta subindo: cada mês sem registro soma mais um mês de FGTS, INSS, férias e 13º devidos, e cada guia atrasada soma mais juros.
Para ter ideia da ordem de grandeza, o simulador da Hiper estima R$ 94.193 para um vínculo sem registro de 42 meses, com salário de R$ 2.500 e o pior cenário marcado em todas as respostas. É uma estimativa, com a memória de cálculo aberta item a item na tela do simulador, e muda com os dados de cada casa. A regularização voluntária do mesmo caso cobra só os recolhimentos e os direitos que ficaram para trás. Antes de qualquer movimento, a Hiper faz o levantamento do período para você saber o tamanho real da conta.
Numa ação trabalhista, a conta ainda recebe itens que não existem na regularização voluntária: honorários do advogado da parte vencedora, que vão de 5% a 15% (CLT, art. 791-A), e, se não houver controle de ponto, as horas extras que a empregada alegar. Sem folha de ponto, a jornada dita por ela tende a ser aceita, porque a lei coloca no empregador o dever de registrar o horário (LC 150/2015, art. 12).
Há também a fiscalização: a falta de anotação na carteira é uma das exceções em que o auditor pode autuar já na primeira visita (LC 150/2015, art. 44), com a multa do art. 47 da CLT.
Como conversar com a empregada sobre a regularização
A conversa funciona melhor quando você explica o ganho de cada lado. Para ela, o registro traz o FGTS depositado, a contagem do tempo para aposentadoria, o direito ao auxílio do INSS em caso de doença e ao salário-maternidade, e o seguro-desemprego se for dispensada sem justa causa. Para você, traz segurança e uma pasta de documentos que prova o que foi pago.
Alguns cuidados ajudam:
- Combine a data de início por escrito e peça que ela assine junto.
- Pague a partir de agora sempre por transferência, na conta dela, com holerite assinado.
- Se houver valores antigos a acertar e vocês quiserem encerrar o assunto de vez, o caminho é o acordo extrajudicial homologado na Justiça do Trabalho (CLT, art. 855-B), com um advogado para cada lado. O texto sobre acordo trabalhista com a empregada doméstica explica o caminho.
- Não peça que ela assine recibos de valores que não recebeu. Isso anula a prova e piora a situação num processo.
Depois de regularizar: como não voltar ao problema
A rotina de todo mês é o que mantém a relação em dia: fechar o ponto, lançar a folha no eSocial, pagar o salário até o quinto dia útil, colher a assinatura no holerite e pagar a DAE até o dia 20 do mês seguinte. Uma vez por ano, confira se as férias foram concedidas no prazo e se o salário está acima do mínimo nacional, que em 2026 é de R$ 1.621.
A Hiper faz esse trabalho para famílias do Rio de Janeiro desde 1968. O Kit Empregador Doméstico cuida do registro, da folha, da guia, do ponto, das férias, do 13º e da rescisão a partir de agora, e a regularização do período antigo é orçada à parte, depois de olhar o seu caso.
Perguntas frequentes
Posso registrar a empregada com a data de hoje, mesmo que ela trabalhe há anos?
O correto é registrar com a data do primeiro dia real de trabalho. Registrar com data posterior deixa todo o período anterior descoberto, e uma testemunha basta para provar a diferença na Justiça.
Até quantos anos para trás a empregada pode cobrar?
Os valores dos últimos 5 anos, contados da data em que ela entra com a ação, e a ação precisa ser proposta em até 2 anos depois do fim do contrato (LC 150/2015, art. 43). O pedido de anotação da carteira para fins de aposentadoria não prescreve (CLT, art. 11, § 1º).
Quem paga o INSS da empregada dos meses atrasados?
A parte da empregada deveria ter sido descontada do salário de cada mês. Como o desconto não foi feito na época, na prática quem regulariza costuma arcar também com essa parte, junto com multa e juros.
Diarista que passou a ir três vezes por semana precisa ser registrada?
Sim. A partir de três dias por semana na mesma casa existe vínculo de empregada doméstica (LC 150/2015, art. 1º). O vínculo começa no dia em que a rotina mudou, e é essa a data que vai para o registro.
Existe multa por manter empregada sem registro?
A CLT prevê multa administrativa por empregado não registrado (art. 47), aplicável de forma subsidiária ao trabalho doméstico. Na fiscalização em casa de família, a falta de anotação na carteira é uma das situações em que o auditor pode autuar já na primeira visita (LC 150/2015, art. 44).
Dá para fazer um acordo com a empregada e encerrar o assunto?
Dá, pelo acordo extrajudicial homologado na Justiça do Trabalho (CLT, art. 855-B). Cada lado precisa ter o próprio advogado. Um acerto de boca ou um recibo simples não impede uma ação depois.
Fontes
- Lei Complementar 150/2015, arts. 1º, 34, 35, 43 e 44
- CLT, arts. 11, 47, 137 e 855-B
- Decreto 12.797/2025 (salário mínimo de 2026)
- INSS: teto e faixas de contribuição de 2026
- eSocial: empregador doméstico
Revisado em 19 de setembro de 2026. Valores de salário mínimo, piso regional e faixas do INSS são revistos todo ano.
